Trabalhadores são resgatados em condições análogas à escravidão no Sertão de Pernambuco
Fiscalização realizada em Santa Cruz, no Sertão do Araripe, resgatou nove trabalhadores submetidos a condições degradantes em obras públicas e pedreiras. Operação foi conduzida pela Auditoria Fiscal do Trabalho e reacende o alerta sobre o combate ao trabalho escravo contemporâneo em Pernambuco.
Nove trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão durante uma operação da Auditoria Fiscal do Trabalho (AFT) realizada no município de Santa Cruz, localizado no Sertão do Araripe, em Pernambuco.
A fiscalização ocorreu entre os dias 30 de junho e 8 de julho de 2026 e identificou graves irregularidades em frentes de trabalho ligadas à pavimentação de vias públicas e à extração de pedras em pedreiras que abasteciam obras executadas por empresas contratadas por entes públicos.
Segundo os auditores, os trabalhadores viviam em condições degradantes, sem acesso adequado à água potável, instalações sanitárias ou alojamentos compatíveis com as normas de saúde e segurança do trabalho.
Operação encontrou alojamentos precários no Sertão de Pernambuco
Durante a fiscalização em Santa Cruz (PE), as equipes constataram que os trabalhadores dormiam em colchões colocados diretamente no chão, em ambientes superlotados e sem qualquer privacidade.
Nas áreas de extração mineral, os alojamentos eram improvisados com barracos de lona montados dentro das próprias pedreiras, expondo os trabalhadores às intempéries e a diversos riscos ocupacionais.
Além disso, foram identificadas jornadas em ambiente insalubre, ausência de áreas para alimentação e inexistência de estrutura mínima exigida pela legislação trabalhista brasileira.
Empresas foram autuadas após fiscalização
As irregularidades foram verificadas em três empresas da construção civil responsáveis pelos serviços de pavimentação e exploração mineral.
De acordo com a Auditoria Fiscal do Trabalho, todas foram autuadas pelas infrações encontradas e deverão responder administrativamente pelas violações da legislação trabalhista.
Os trabalhadores resgatados passaram a ter acesso aos direitos previstos em lei, incluindo verbas rescisórias, emissão das guias para o seguro-desemprego especial destinado às vítimas de trabalho análogo à escravidão e acompanhamento pelos órgãos competentes.
Uso de explosivos e falta de equipamentos preocupam auditores
Outro ponto que chamou a atenção dos fiscais foi a utilização de explosivos artesanais nas atividades de extração de pedras.
Segundo a fiscalização, parte dos trabalhadores realizava essas atividades sem treinamento adequado e sem a habilitação exigida para esse tipo de operação, aumentando significativamente o risco de acidentes graves.
Também foram constatadas falhas no fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs) e na adoção de medidas básicas de segurança.
O que caracteriza trabalho análogo à escravidão?
Pela legislação brasileira, configura trabalho análogo à escravidão qualquer situação que envolva uma ou mais das seguintes condições:
jornadas exaustivas;
condições degradantes de trabalho;
servidão por dívida;
restrição da liberdade de locomoção.
Não é necessário que exista cárcere privado para que a situação seja enquadrada como trabalho escravo contemporâneo.
Pernambuco mantém fiscalização permanente
Casos de trabalho análogo à escravidão continuam sendo combatidos por forças integradas compostas pela Auditoria Fiscal do Trabalho, Ministério Público do Trabalho (MPT), Polícia Federal e demais órgãos de fiscalização.
No Sertão de Pernambuco, operações vêm sendo intensificadas em atividades como mineração, agricultura, construção civil e obras de infraestrutura, setores considerados mais vulneráveis à exploração irregular da mão de obra.
Especialistas destacam que denúncias feitas por trabalhadores e pela população são fundamentais para combater esse tipo de crime e garantir a proteção dos direitos humanos e trabalhistas.
Impacto para Santa Cruz e o Sertão do Araripe
O caso coloca novamente Santa Cruz no centro das discussões sobre fiscalização trabalhista no interior de Pernambuco e evidencia a necessidade de maior rigor no acompanhamento de contratos públicos e das condições oferecidas aos trabalhadores.
Além da responsabilização das empresas envolvidas, a expectativa é que novas inspeções sejam realizadas na região para evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer.