Raquel Lyra visita MST em Caruaru e provoca reação de grupos de direita e esquerda

Governadora recebeu carta de propostas na Fazenda Normandia e participação no encontro gerou questionamentos entre setores ligados ao bolsonarismo e ao lulismo

Por Inácio Santos | Publicado em 07/09/2026 às 22:44

A visita da governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) à Fazenda Normandia, em Caruaru, provocou repercussão entre grupos políticos de direita e de esquerda em Pernambuco. O encontro com o MST ocorreu na sexta-feira (4), quando a governadora recebeu uma carta com propostas relacionadas à reforma agrária e às políticas públicas para assentamentos e acampamentos.

A Fazenda Normandia é uma das principais referências do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em Pernambuco e possui peso simbólico na história da reforma agrária no Estado. A agenda, porém, ganhou dimensão política em razão do atual cenário eleitoral e da posição de Raquel Lyra na disputa pelo Governo de Pernambuco.

Encontro teve entrega de carta de propostas

Durante a visita, Raquel Lyra recebeu do coordenador estadual do MST, Jaime Amorim, uma carta-compromisso com reivindicações relacionadas à agricultura familiar, reforma agrária e políticas públicas destinadas às comunidades ligadas ao movimento.

Segundo Amorim, a entrega da carta faz parte de uma iniciativa que também foi realizada com outros candidatos. O dirigente afirmou que o encontro não representa apoio eleitoral à governadora.

“Não nos queiram apenas como aliados. Nós vamos estar sempre do lado de cá do balcão fazendo a luta, a organização e entregando as pautas”, afirmou Amorim durante o encontro, conforme relatos publicados pela imprensa.

A declaração é importante para diferenciar a agenda institucional de uma eventual aliança eleitoral. O MST mantém posicionamento político próprio e, segundo apurações publicadas nesta segunda-feira (7), o movimento em Pernambuco mantém orientação favorável à candidatura de João Campos (PSB) para o Governo do Estado, embora existam divergências internas entre militantes.

Raquel esteve acompanhada de candidatos ao Senado

A governadora participou da agenda acompanhada dos candidatos ao Senado Eduardo da Fonte (PP) e Túlio Gadelha (PSD), que integram sua composição eleitoral.

Durante a visita, Raquel utilizou uma camisa com a bandeira de Pernambuco e recebeu uma cesta com alimentos produzidos pelos assentados. Em determinado momento, colocou a cesta sobre a cabeça, em referência a uma prática tradicional associada ao transporte de produtos por sertanejos e trabalhadores das feiras.

Ao discursar para os participantes, a governadora defendeu pautas relacionadas à produção de alimentos e à energia limpa e apresentou a agenda como parte de sua campanha pela renovação do mandato.

Raquel também pediu apoio para sua candidatura e para os nomes que integram sua chapa, afirmando que pretendia contar com a participação dos presentes na eleição.

Por que a visita provocou reação da direita?

A presença da governadora na sede do MST provocou questionamentos entre setores ligados à direita pernambucana. A Fazenda Normandia é historicamente identificada com o movimento de luta pela reforma agrária, que possui proximidade política com setores da esquerda nacional.

Raquel Lyra, por outro lado, recebe apoio de partidos e lideranças ligadas ao campo conservador. O senador Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, declarou apoio à candidatura da governadora na disputa pelo Governo de Pernambuco.

Nas redes sociais, críticos questionaram a presença de Raquel em um espaço tradicionalmente associado ao MST e cobraram uma definição mais clara sobre seu posicionamento político nacional.

A governadora, entretanto, mantém uma estratégia de independência em relação à disputa presidencial. Em recentes declarações, Raquel evitou declarar voto para a Presidência e afirmou priorizar os interesses de Pernambuco.

Setores da esquerda também fizeram críticas

A reação não ficou restrita aos grupos de direita. Setores ligados ao campo lulista também questionaram a aproximação entre Raquel e o MST.

As críticas partiram principalmente da posição política da governadora na eleição presidencial. Raquel não declarou apoio a Luiz Inácio Lula da Silva e, ao mesmo tempo, conta com o apoio de setores ligados ao bolsonarismo na disputa estadual.

Outro ponto levantado por críticos foi a ausência de registros do encontro nos perfis oficiais da governadora. Enquanto a visita ocorreu na sexta-feira, Raquel não publicou imagens da agenda em suas redes sociais. O MST também não divulgou inicialmente registros da reunião com a governadora.

Posteriormente, o movimento publicou imagens de encontros com outros candidatos, entre eles João Campos e Ivan Moraes (PSOL), que também receberam propostas relacionadas às pautas defendidas pela organização.

MST reforça apoio a João Campos, mas reconhece divergências internas

O coordenador do MST em Pernambuco, Jaime Amorim, afirmou nesta segunda-feira que o movimento mantém posição política favorável à candidatura de João Campos. Ao mesmo tempo, segundo declaração publicada pelo Blog Cenário, existem integrantes que preferem não formalizar apoio a um candidato.

Essa divisão ajuda a explicar parte da repercussão do encontro com Raquel Lyra. Embora o movimento tenha uma orientação política nacional e uma posição predominante em Pernambuco, seus integrantes não formam necessariamente um bloco eleitoral completamente uniforme.

A situação também ocorre em um ambiente de forte disputa pelo Governo de Pernambuco, no qual Raquel Lyra e João Campos aparecem como os principais nomes da corrida eleitoral nas pesquisas divulgadas recentemente.

Raquel tenta manter posição independente

A estratégia política de Raquel Lyra tem sido marcada pela tentativa de manter diálogo com diferentes grupos. A governadora já fez elogios ao presidente Lula durante seu mandato, ao mesmo tempo em que passou a receber apoio de partidos e lideranças vinculadas à direita.

Essa posição intermediária também alimenta o chamado voto “Luquel”, expressão utilizada para descrever eleitores que pretendem votar em Lula para presidente e em Raquel para governadora.

A visita à Fazenda Normandia pode ser interpretada dentro dessa estratégia de ampliar o diálogo com diferentes segmentos do eleitorado pernambucano. No entanto, a repercussão demonstra que a aproximação com determinados grupos também pode gerar resistência entre setores que apoiam a candidata.

Visita ganha importância no cenário eleitoral

A repercussão do encontro mostra como as alianças e aproximações políticas assumem importância ainda maior durante o período eleitoral.

Para o MST, a entrega da carta representa uma oportunidade de apresentar reivindicações diretamente à candidata ao Governo de Pernambuco. Para Raquel Lyra, a agenda permitiu estabelecer diálogo com um movimento social de grande presença no Estado e apresentar suas propostas a um segmento específico do eleitorado.

O episódio, entretanto, também expôs a dificuldade de manter uma posição política independente em uma eleição marcada pela polarização nacional.

Até o momento, não há indicação de que a visita tenha representado apoio eleitoral formal do MST à candidatura de Raquel Lyra. O que existe é o registro de um encontro, a entrega de uma carta de propostas e manifestações políticas posteriores que revelaram divergências entre diferentes grupos.

Com a campanha eleitoral avançando, a aproximação entre candidatos e movimentos sociais deve continuar sendo acompanhada de perto em Pernambuco, especialmente em uma disputa na qual alianças estaduais e posicionamentos nacionais têm peso significativo para o eleitorado.

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