Por que Pernambuco registra tantos ataques de tubarão? Entenda o que tornou o litoral do Recife um dos mais perigosos do mundo
Com 82 ataques registrados desde 1992 e 27 mortes confirmadas, Pernambuco concentra mais da metade dos incidentes com tubarões no Brasil. Pesquisas apontam que mudanças ambientais provocadas pela construção do Complexo Portuário de Suape podem explicar o fenômeno que transformou praias do Recife, Jaboatão dos Guararapes e Olinda em áreas de risco.
Quando se fala em ataques de tubarão no Brasil, um estado aparece de forma recorrente nas estatísticas: Pernambuco. Desde 1992, o litoral pernambucano contabiliza 82 ataques, dos quais 27 terminaram em morte, segundo dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit).
O dado, por si só, impressiona. Mas há um aspecto ainda mais intrigante: praticamente todos os ataques se concentram em um trecho de aproximadamente 20 quilômetros de praias urbanas, abrangendo as praias do Pina, Boa Viagem, Piedade e Candeias, na Região Metropolitana do Recife.
Esse comportamento faz do litoral pernambucano um caso estudado por pesquisadores do Brasil e do exterior, já que outros estados com extensas faixas litorâneas e intenso turismo registram números muito inferiores.
Por que os ataques de tubarão acontecem principalmente no Recife?
Até o início da década de 1990, o litoral do Recife não era considerado uma área de risco.
Embora exista o registro de um ataque fatal em 1947, na Praia de Piedade, o episódio foi tratado como um caso isolado. Durante mais de quatro décadas, não houve uma sequência de ocorrências que justificasse qualquer alerta permanente.
Tudo mudou em 28 de junho de 1992.
Na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, o banhista Ubiratã Martins Gomes morreu após ser atacado por um tubarão. A partir desse episódio, uma série de novos ataques começou a ser registrada praticamente na mesma região.
Foi o início da chamada “série moderna” dos ataques de tubarão em Pernambuco.
A relação entre Suape e os ataques de tubarão
A principal hipótese científica para explicar esse fenômeno está relacionada à construção do Complexo Industrial Portuário de Suape, localizado entre os municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho.
Durante nossa apuração, verificamos que pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), liderados pelo professor Fábio Hazin, defendem que as intervenções ambientais realizadas para implantação do porto alteraram profundamente o habitat natural dos tubarões.
Entre as principais mudanças estão:
* destruição de centenas de hectares de manguezais;
* aterro de áreas estuarinas;
* alteração das desembocaduras dos rios Ipojuca e Merepe;
* mudanças nas rotas naturais utilizadas por tubarões-cabeça-chata.
Esses ambientes funcionavam como verdadeiros “berçários naturais”, onde as fêmeas davam à luz antes de retornarem ao oceano.
O Rio Jaboatão passou a concentrar tubarões
Com a destruição desses habitats, pesquisadores acreditam que as fêmeas passaram a utilizar outro estuário com características semelhantes: a foz do Rio Jaboatão.
O problema é que essa área desemboca justamente próximo às praias urbanas mais frequentadas do estado.
Na prática, os animais passaram a circular muito mais perto dos locais utilizados diariamente por milhares de banhistas.
Esse fator ajuda a explicar por que praticamente todos os ataques ocorrem entre:
* Boa Viagem;
* Pina;
* Piedade;
* Candeias.
O tubarão mudou ou foi o ambiente que mudou?
Especialistas ressaltam que o comportamento dos tubarões não sofreu alterações significativas.
O que mudou foi o ambiente.
Espécies como o tubarão-cabeça-chata (Bull Shark) naturalmente utilizam águas rasas, estuários e regiões onde há mistura entre água doce e salgada.
Quando esses habitats foram modificados pela ação humana, os animais apenas passaram a utilizar novos locais com características semelhantes.
A hipótese é aceita, mas ainda não foi comprovada judicialmente
Embora seja considerada a principal explicação científica para os ataques, a relação direta entre a construção de Suape e o aumento das ocorrências nunca foi confirmada pela Justiça.
Em 2025, o Ministério Público Federal arquivou um inquérito que investigava a responsabilidade do complexo portuário.
Isso significa que, juridicamente, não existe decisão atribuindo culpa ao empreendimento.
No entanto, pesquisadores continuam apontando essa hipótese como a mais consistente do ponto de vista ambiental.
Monitoramento reduziu os ataques em até 90%
Após o crescimento dos casos, Pernambuco implantou diversas medidas de prevenção.
Entre elas:
* criação do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit);
* instalação de placas de advertência;
* proibição de esportes aquáticos em áreas críticas;
* criação do Protuba (Programa Estadual de Monitoramento de Tubarões).
O Protuba capturava tubarões nas áreas de maior risco, realizava marcação eletrônica e transportava os animais para regiões afastadas da costa.
Segundo pesquisadores envolvidos no projeto, durante os períodos de funcionamento contínuo houve redução de aproximadamente 90% dos ataques.
Ataque em Olinda reacendeu o alerta em Pernambuco
Após quase três anos sem registros na orla metropolitana, o litoral pernambucano voltou a registrar um ataque fatal em janeiro de 2026.
A vítima foi um adolescente de 13 anos, atacado na Praia del Chifre, em Olinda.
O caso reacendeu o debate sobre a necessidade de retomada permanente do monitoramento dos tubarões e da adoção de políticas ambientais de longo prazo.
Quais praias apresentam maior risco?
Segundo o histórico de ocorrências, os trechos com maior concentração de ataques são:
* Praia de Boa Viagem (Recife);
* Praia do Pina (Recife);
* Praia de Piedade (Jaboatão dos Guararapes);
* Praia de Candeias (Jaboatão dos Guararapes);
* Praia del Chifre (Olinda).
Em todas essas áreas, há placas alertando sobre o risco e orientações para que banhistas evitem entrar no mar em locais profundos, próximos a canais, arrecifes ou desembocaduras de rios.
O que dizem os especialistas?
Pesquisadores destacam que ataques de tubarão continuam sendo eventos raros quando comparados ao número de pessoas que frequentam as praias pernambucanas.
Ainda assim, recomendam evitar o banho em áreas sinalizadas, não entrar no mar durante maré alta ou água turva e respeitar todas as orientações dos órgãos de segurança.
A combinação entre preservação ambiental, monitoramento científico e conscientização da população é considerada a estratégia mais eficaz para reduzir novos incidentes.