MPPE pede absolvição de acusado no caso do professor Betinho no Recife após considerar provas insuficientes

Ministério Público considera frágeis os elementos contra Raphael Gouveia Thorpe, acusado pela morte do professor José Bernardino da Silva Filho, ocorrida em 2015 na Boa Vista

Por Inácio Santos | Publicado em 10/09/2026 às 23:45
Mais de 11 anos depois da morte do professor e coordenador pedagógico José Bernardino da Silva Filho, conhecido como Betinho, o caso voltou a ganhar destaque no Recife. Em alegações finais apresentadas à Justiça, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) pediu a absolvição de Raphael Gouveia Thorpe, acusado pelo homicídio. A manifestação do órgão ocorre após a fase de instrução do processo, quando foram ouvidas testemunhas e analisados os elementos reunidos ao longo da investigação. Segundo a promotora Eliane Gaia, responsável pelo parecer, as provas existentes no processo são “frágeis e insuficientes” para sustentar uma decisão de pronúncia, etapa que poderia levar o acusado a julgamento pelo Tribunal do Júri. O pedido do MPPE não encerra o processo. A decisão caberá à 1ª Vara do Tribunal do Júri da Capital, que poderá acolher a manifestação do Ministério Público ou determinar outras providências dentro dos limites legais. O que aconteceu com Betinho José Bernardino da Silva Filho tinha 49 anos e trabalhava como professor e coordenador pedagógico do Colégio Agnes, no Recife. O corpo dele foi encontrado em seu apartamento, no Edifício Módulo, no bairro da Boa Vista, região central da capital pernambucana, em 16 de maio de 2015. A investigação apontou que o professor havia sido vítima de homicídio. O corpo apresentava sinais de violência, e elementos encontrados no apartamento passaram a fazer parte da investigação conduzida pela Polícia Civil. O caso ganhou diferentes rumos ao longo dos anos e chegou a envolver outros suspeitos antes que uma nova investigação concentrasse as suspeitas sobre Raphael Gouveia Thorpe. O histórico do processo é marcado por revisões de provas e mudanças nas linhas investigativas. Por isso, o atual pedido de absolvição do MPPE precisa ser compreendido dentro de uma investigação que se prolonga por mais de uma década. Nova investigação apontou Raphael como suspeito Depois que dois estudantes do Colégio Agnes foram absolvidos das acusações relacionadas ao homicídio, a Justiça determinou a realização de novas investigações. Uma das razões para a mudança de rumo foi a revisão de elementos periciais utilizados anteriormente. Perícias posteriores realizadas pela Polícia Federal e pelo Instituto de Criminalística indicaram que determinadas impressões digitais inicialmente atribuídas aos estudantes não pertenciam a eles. Os peritos responsáveis pelo primeiro laudo posteriormente reconheceram o erro. A partir da reabertura das investigações, a Polícia Civil passou a analisar novamente as circunstâncias da morte do professor. Em 2024, após uma investigação que durou anos, a polícia apontou Raphael como responsável pelo homicídio. O Ministério Público posteriormente ofereceu denúncia contra ele por homicídio duplamente qualificado, atribuindo ao acusado as qualificadoras de emprego de tortura e utilização de recurso que teria dificultado a defesa da vítima. A denúncia foi recebida pela Justiça, e Raphael passou à condição de réu. Por que o MPPE mudou de posição? A manifestação atual do Ministério Público chama atenção porque ocorre depois de o órgão ter apresentado acusação contra Raphael. Nas alegações finais, porém, a promotora Eliane Gaia avaliou que os elementos produzidos durante a instrução não permitem estabelecer, com segurança suficiente, que o réu foi o responsável pela morte de Betinho. Um dos pontos analisados é a presença de material genético e impressões digitais de Raphael no apartamento da vítima. Para a acusação apresentada anteriormente, esses elementos faziam parte do conjunto de indícios contra o réu. Na avaliação apresentada nas alegações finais, entretanto, a existência desse material não seria suficiente para demonstrar que Raphael estava no imóvel no momento do homicídio. Isso ocorre porque o acusado mantinha um relacionamento estável com Betinho e, segundo informações apresentadas no processo, frequentava regularmente o apartamento. Raphael também afirmou em interrogatório que mantinha pertences pessoais no local. Dessa forma, a promotora considerou que a presença de material biológico ou impressões digitais poderia ser explicada pela própria convivência entre os dois e não necessariamente pela participação no homicídio. Imagens de segurança também entraram na análise Outro ponto considerado pela investigação diz respeito ao sistema de videomonitoramento do edifício onde Betinho morava. Segundo informações apresentadas no processo, funcionários do prédio relataram a existência de pontos cegos nas câmeras de segurança. Esses pontos poderiam permitir que alguém familiarizado com a estrutura do edifício circulasse por determinadas áreas sem ser registrado pelo sistema de monitoramento. A informação é relevante porque, segundo o MPPE, não seria possível utilizar as imagens disponíveis para estabelecer de maneira segura quem entrou ou saiu do prédio no período relacionado ao crime. Esse fator contribuiu para a avaliação de que o conjunto probatório não seria suficiente para sustentar a ida de Raphael a julgamento pelo Tribunal do Júri. O caso ainda não está encerrado O pedido de absolvição apresentado pelo MPPE não significa que Raphael já tenha sido absolvido. A decisão ainda será tomada pela Justiça. A magistrada responsável pelo processo poderá analisar as alegações apresentadas pelo Ministério Público, pela defesa e os demais elementos existentes nos autos antes de decidir os próximos passos. Entre as possibilidades está a absolvição do acusado. Também existe a possibilidade de o processo seguir outro caminho caso a Justiça entenda necessária alguma providência adicional, inclusive eventual retorno do inquérito à Polícia Civil para novas diligências. Portanto, o cenário atual representa uma nova reviravolta no caso, mas não corresponde a uma decisão judicial definitiva sobre a responsabilidade de Raphael. Mais de uma década sem uma resposta definitiva O homicídio de Betinho permanece como um dos casos de grande repercussão no Recife que atravessaram diferentes fases de investigação. Desde a descoberta do corpo, em maio de 2015, a apuração passou por diferentes suspeitos, perícias, absolvições e reabertura do inquérito. Em 2019, dois estudantes que haviam sido investigados foram absolvidos. Posteriormente, a revisão das perícias ajudou a modificar a direção das investigações e levou a Polícia Civil a aprofundar a apuração sobre Raphael. Anos depois, o mesmo processo volta a apresentar uma mudança significativa com o pedido do próprio Ministério Público para que o atual acusado seja absolvido por falta de provas suficientes. O desfecho agora depende da análise da Justiça. O que pode acontecer daqui para frente A principal questão é saber se a 1ª Vara do Tribunal do Júri da Capital concordará com a avaliação apresentada pelo MPPE. Caso a Justiça acolha o pedido, Raphael poderá ser absolvido das acusações relacionadas ao homicídio. Outra possibilidade é que sejam determinadas novas providências para esclarecer pontos ainda considerados insuficientemente investigados. O caso também demonstra a importância da análise crítica das provas em processos criminais. A simples existência de um indício não significa, necessariamente, que ele seja suficiente para estabelecer a autoria de um crime. No processo penal, a responsabilidade deve ser analisada a partir do conjunto probatório produzido e submetido ao contraditório. No Caso Betinho, essa discussão ganhou nova dimensão justamente porque a investigação percorreu diferentes caminhos ao longo de mais de uma década. O assassinato ocorreu em 2015, no bairro da Boa Vista, no Recife. Mais de 11 anos depois, ainda não existe uma decisão definitiva que estabeleça judicialmente quem foi responsável pela morte do professor. A manifestação do MPPE representa, portanto, mais um capítulo de uma investigação marcada por mudanças de suspeitos, revisão de perícias e novas linhas de apuração. Agora, cabe à Justiça avaliar o pedido de absolvição e determinar qual será o próximo passo do processo. Fonte principal: Jornal do Commercio. Fonte complementar: Diario de Pernambuco. Observação: As acusações e elementos investigativos mencionados na matéria são apresentados com a devida atribuição. O pedido de absolvição do MPPE ainda será analisado pela Justiça. 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