Disputa entre Raquel Lyra e João Campos chega à Justiça Eleitoral

Candidaturas trocam acusações sobre supostas estruturas digitais usadas para atacar adversários durante a campanha em Pernambuco.

Por Inácio Santos | Publicado em 30/08/2026 às 11:03
A disputa pelo Governo de Pernambuco ganhou um novo capítulo com a judicialização do confronto entre Raquel Lyra e João Campos. Nos últimos dias, as duas campanhas passaram a trocar acusações relacionadas à existência de supostas estruturas digitais utilizadas para atacar adversários políticos. O episódio ganhou força após uma reportagem da TV Record apresentar acusações sobre uma possível estrutura de páginas e perfis nas redes sociais que teria atuado contra João Campos. O Governo de Pernambuco negou as acusações, enquanto um servidor estadual citado na reportagem foi exonerado após a divulgação do conteúdo. A partir da repercussão, a campanha de João Campos anunciou medidas jurídicas contra a gestão estadual e a candidatura de Raquel Lyra. A governadora, por sua vez, também recorreu à Justiça para contestar acusações feitas contra ela e questionar declarações do adversário. As acusações apresentadas pelas duas campanhas devem ser tratadas como alegações das partes e não como fatos definitivamente comprovados. Como começou o confronto A discussão ganhou força depois que uma reportagem da TV Record apontou uma possível estrutura digital que teria produzido e distribuído conteúdos contra João Campos. A reportagem citou Amisadai Andrade da Silva, servidor da Caixa Econômica Federal cedido ao Governo de Pernambuco, que ocupava o cargo de superintendente de Operações da Arena de Pernambuco. Segundo a cobertura do UOL, a reportagem relacionou o servidor a perfis que publicavam críticas contra João Campos. Após a exibição do conteúdo, Amisadai foi exonerado pelo Governo de Pernambuco. A Polícia Federal, entretanto, negou naquele momento que estivesse investigando o caso, informação que havia sido apresentada na reportagem televisiva. A situação provocou reação imediata de João Campos, que afirmou que o episódio reforçaria denúncias que, segundo ele, já vinha fazendo havia mais de um ano. O candidato também anunciou que sua equipe jurídica adotaria providências para que as acusações fossem analisadas pelos órgãos competentes. Raquel Lyra apresenta outra versão A governadora Raquel Lyra negou as acusações e apresentou uma versão diferente para o episódio. A campanha da governadora afirma que também existiria uma estrutura digital utilizada para atacar Raquel e promover João Campos. Segundo informações divulgadas pelo UOL, a campanha de Raquel apresentou à Justiça Eleitoral um dossiê baseado em uma auditoria digital que apontaria 535 perfis, dos quais 489 seriam supostamente inautênticos. De acordo com a acusação, esses perfis seriam utilizados para criticar a governadora e promover o candidato do PSB. A existência, a coordenação e a finalidade desses perfis são questões que dependem da análise da Justiça Eleitoral e não devem ser apresentadas como fatos definitivamente comprovados. Em uma agenda de campanha em Igarassu, Raquel afirmou que havia acionado a Justiça Eleitoral contra o que classificou como um suposto "gabinete que dissemina ódio". João Campos também recorreu à Justiça A campanha de João Campos anunciou uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) contra Raquel Lyra, reunindo cinco eixos de acusações. Segundo o Jornal do Commercio, a ação envolve alegações de supostos abusos de poder político e econômico, uso indevido dos meios de comunicação e outras condutas que a coligação considera irregulares. Entre os pontos apresentados está justamente a denúncia relacionada ao suposto "gabinete do ódio". A campanha informou ainda que pretendia levar informações a órgãos como Ministério Público, Controladoria-Geral da União e tribunais de contas. A apresentação da AIJE, porém, representa o início de uma apuração judicial e não uma conclusão sobre a procedência das acusações. Raquel Lyra pede esclarecimentos a João Campos Na sexta-feira (28), Raquel Lyra apresentou uma interpelação criminal para que João Campos esclarecesse declarações feitas sobre uma suposta "milícia digital". A medida foi apresentada com fundamento no artigo 144 do Código Penal, que permite a uma pessoa que se considere ofendida por referências ou alusões solicitar explicações em juízo. Segundo o Jornal do Commercio, a iniciativa não representa, naquele momento, uma queixa-crime ou pedido de condenação contra João Campos. O objetivo é obter esclarecimentos sobre as declarações feitas pelo candidato. O episódio ampliou a dimensão jurídica da disputa e colocou as duas campanhas em lados opostos também nos tribunais. Justiça determina retirada de publicações O caso teve nova repercussão neste sábado (29), quando a Justiça Eleitoral determinou que o Instagram removesse publicações de quatro perfis que utilizavam uma reportagem da TV Record para atribuir à governadora Raquel Lyra a existência de um suposto "gabinete do ódio". A decisão foi proferida pelo desembargador eleitoral Luiz Gustavo Mendonça de Araújo, do Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE). A determinação alcançou quatro páginas que, juntas, somavam mais de 6 milhões de seguidores. A decisão tratou especificamente das publicações questionadas pela representação apresentada pela coligação de Raquel Lyra. A decisão sobre essas publicações não significa uma conclusão definitiva sobre todas as acusações que envolvem as duas campanhas. O episódio demonstra, contudo, que a disputa sobre conteúdo político nas redes sociais já está sendo submetida diretamente à Justiça Eleitoral. O papel das redes sociais na eleição A disputa entre Raquel Lyra e João Campos também revela o peso crescente das redes sociais na eleição de 2026. As plataformas digitais se tornaram ferramentas utilizadas pelas campanhas para apresentar propostas, divulgar agendas, responder adversários e mobilizar eleitores. Ao mesmo tempo, a circulação de acusações e conteúdos potencialmente ofensivos pode gerar disputas judiciais, especialmente quando determinada publicação apresenta uma alegação como se fosse um fato comprovado. Esse cenário torna ainda mais importante a distinção entre declaração política, acusação, investigação e decisão judicial. O próprio TRE-PE já foi procurado por João Campos anteriormente para tratar de preocupações relacionadas à disseminação de fake news e à atuação de um suposto "gabinete do ódio" nas redes sociais. Recife permanece no centro da disputa O confronto possui forte repercussão no Recife, cidade que ocupa posição estratégica na política pernambucana. João Campos construiu sua trajetória recente como prefeito da capital antes de disputar o Governo de Pernambuco. Por isso, a cidade continua sendo uma das principais bases políticas da candidatura do PSB. O cenário eleitoral, entretanto, não se limita à capital. As campanhas também buscam ampliar presença na Região Metropolitana, Zona da Mata, Agreste e Sertão. João Campos e Raquel Lyra disputam diretamente a narrativa sobre o episódio, enquanto suas equipes jurídicas levam diferentes acusações e pedidos à Justiça Eleitoral. O que está comprovado e o que ainda é alegação O caso exige cuidado na distinção entre informações comprovadas e declarações das campanhas. Está confirmado que houve uma reportagem da TV Record sobre o suposto esquema, que um servidor citado no conteúdo foi exonerado, que João Campos anunciou medidas judiciais, que Raquel Lyra apresentou medidas próprias e que a Justiça Eleitoral determinou a remoção de determinadas publicações. Já as acusações sobre a existência de estruturas coordenadas, utilização de recursos públicos, perfis inautênticos e eventual participação direta de autoridades permanecem como alegações apresentadas pelas partes e estão sujeitas à análise dos órgãos competentes. O eleitor deve diferenciar aquilo que foi efetivamente decidido pela Justiça das acusações feitas pelas campanhas durante a disputa eleitoral. O que pode acontecer agora O caso ainda está em desenvolvimento e novas decisões podem surgir durante a campanha. A campanha de João Campos deverá continuar defendendo a investigação das acusações relacionadas à suposta estrutura digital. Raquel Lyra, por sua vez, deverá manter sua estratégia jurídica para contestar acusações e conteúdos que considere irregulares. A tendência é que a disputa sobre comunicação digital continue ocupando espaço na eleição, principalmente diante da velocidade com que conteúdos políticos circulam nas redes sociais. Além das propostas de governo, os candidatos também terão de lidar com decisões judiciais, representações eleitorais e questionamentos sobre a origem e a autenticidade de conteúdos publicados durante a campanha. A disputa entre Raquel Lyra e João Campos agora também é travada nos tribunais, tornando a Justiça Eleitoral um dos principais espaços de confronto da eleição em Pernambuco. Para o eleitor pernambucano, acompanhar decisões oficiais e documentos dos processos será fundamental para separar fatos comprovados de acusações e versões apresentadas pelas campanhas. O caso permanece em andamento e novos capítulos podem alterar o cenário nos próximos dias.